sexta-feira, 31 de julho de 2015

Acima das nuvens

Dia nublado.
A chuva vai e volta sem parar.
Na rua, as pessoas correm para se proteger
das gotas de água.
Alguns correm para livrar as roupas do varal do aguaceiro.
E eu aqui observando tudo.

Foi inevitável absorver
todo aquele movimento na memória.

Lembrei-me, então, de uma viagem de avião
na qual, após passar por todas as nuvens de chuva,
a aeronave encontrou a redenção seca e sublime
daquele por-do-sol.

E a imagem também ficou gravada.

A epifania veio não muito tempo depois.
a vida insiste em colocar algumas
nuvens de tempestade no nosso céu de brigadeiro.
Parte de nós a vontade de voar
e subir para contemplar o outro lado.
Parte de nós a necessidade de não ficar
na chuva e com frio.

Temos que lembrar também que existem alguns aviões
- eu prefiro chamá-los de amigos -
que esperam para que embarquemos com eles.
Mas, como todo avião,
têm destinos e horários a cumprir.
Não podemos, pois, perder esses voos.

A felicidade não cai do céu.
Ela flutua acima das nuvens de tempestade
E aguarda, ansiosa, a nossa chegada.

Victor da Silva Neris

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Porque escrevo

         Então é madrugada e você inventa de ouvir uma música qualquer na internet. Aparece Cássia Eller na playlist e vem o pensamento "que mal faria?". Escolhe uma música inofensiva e pronto: ela não sai mais da cabeça. Quem dera fosse música ruim, pois o próprio bom senso trataria de excluí-la do HD musical. Mas não! É uma música foda que gruda e faz lembrar de muita coisa. Além disso, traz junto uma sensação de que tudo vai dar certo e de que todas as esperanças alimentadas por nós serão correspondidas. E a vontade de escrever extrapola a resistência do racionalismo barato ao qual nos impomos.
        E um bocado de reflexões explodem e, junto com elas, muito do que a gente sente e pensa explode também. As fotos que não traziam tanta coisa voltam a ensopar a gente de lembranças. E essas nos resgatam aos nossos eus de tempos atrás. E esses eus passados nos mostram que não somos tão diferentes como pensamos. As angústias, os sonhos, os medos: tudo isso volta. E como volta! 
           Ainda somos crianças. Sabemos muito pouco desse mundo de meu Deus. E, se sabemos pouco sobre o mundo, imaginem o que sabemos de nós mesmos! Ou pior, do amor.Nos dizemos sábios, impenetráveis sentimentalmente, muros de frieza e de racionalidade. No fundo, todos somos crianças assustadas com os trovões da vida. Bem no fundo, ainda somos frágeis, inocentes, pequenos. Ainda somos muito menos que um grão de areia nos deserto.
           Sentimo-nos com todo o garbo e a elegância que o mundo pode oferecer, temos reis na barriga, somos mais que o resto, somos melhores que a média. No final, apenas pó e saudade seremos. E nada disso que foi tão importante e essencial vai importar. Seremos espectros, espíritos, almas no paraíso, almas no inferno ou nada. 
         Todos começamos num encontro de gametas, todos precisamos de ar, da água, de alimento. É muita prepotência achar que é melhor que alguém. É muito triste achar que é pior que alguém. É importante lembrar que quem não se ama não pode amar o próximo. Vai ver a solução pros problemas é aprendermos a nos amarmos mais. Ser miserável não é desculpa pra tornar a vida dos outros miserável.
           Essa viagem toda por uma música, por alguns minutos. E foram os melhores em muito tempo. Deixe a mente fluir. Escolha uma boa música, pense em alguém ou fique no escuro. Tudo isso amo mesmo tempo também pode. Abra-se pra si mesmo! Permita-se! Seja você para você por alguns minutos ao menos.

Victor da Silva Neris

terça-feira, 9 de junho de 2015

Uma vez na vida

Quando se esvai a paixão,
quando esfria o colchão,
quando os dias que vêm e vão
já não são mais os mesmos:
decepção!

Junto com esta, matadouro das grandes paixões,
morre a certeza, o calor, a rotina.
A incerteza toma conta e, por mais,
por mais que não seja da minha conta,
dou minha humilde e singela opinião.

Amor não é tudo, sexo não é fim e,
mesmo tudo tendo um fim,
nada é em vão.

Nesse mundo superestimado, superfaturado,
tendemos a exagerar, a idealizar demais.
A vida não é poesia da Disney;
é Gregório de Matos, é Machado.
A vida é ironia, é rir do ridículo,
é rir de si quando se é ridículo.

É mudar: do Romantismo ao Realismo;
do Parnasianismo ao Modernismo.

Paremos com essa idealização
da paixão, do amor, do sexo e da dor.
Sejamos complexos, alternos, singelos.
Sejamos menos,
ao menos,
uma vez na vida.

Victor da Silva Neris

sábado, 6 de junho de 2015

Seria um "Olá, tudo bem"?

Da poesia estive ausente.
Talvez fosse muito adulto para ela.
Ou ela muito além de meus saberes.

A distância nos fez reconciliar.
Não sei se essa é a palavra certa.

Minha fluidez, sem vírgulas, sem pontos, sem...
Já não sou mais o mesmo!
Talvez mais do mesmo.

Perco-me nos pensamentos desconexos,
nos sentimentos avessos a interpretação.
A falta de prática reclama em meus versos,
no meu sono, no meu ser!

Não ser! Não ser!
Pra que neguei tanto a essência?
Medo? Angústia?

Da poesia afastei-me assim como de muitas outras coisas.
Para ela quero voltar, mas não para o que abandonei.
O que era eu ainda está em mim.
Se melhorado ou não eu não sei.
As vírgulas já não se encaixam, os pensamentos...
Onde é que eu estava?

Do Romantismo, do Realismo e do Modernismo afastei-me.
Aliás, nem sei diferenciá-los.
Não vejo motivo para isso.
Basta a poesia,
a poesia me basta.

Prometo-lhe, caro leitor
- nesse momento Machadiano -
melhorar.

Victor da Silva Neris